
Se tu soubesses quantos crimes já passaram pelas minhas mãos, quantos corpos já afaguei depois de eu ter cometido os crimes. Um corpo vazio em que os gestos são e estão perfeitos. Todas as armas previamente arrumadas num canto da rua onde tu vais passar. É um ruído ensurdecedor este. O do silêncio. O que sufoca todas as palavras que se querem suicidar.
Reconheces a minha doença?
Depois de partir, diz-me se te vais lembrar das vezes em que escondi as armas. As pontas dos meus dedos estão vestidas de vermelho e mergulham fundo nas feridas na tentativa de encontrar uma espécie de túnel e que nesse túnel esteja o trilho do que te foi pedido encontrar.
A motivação é nenhuma.
Estamos todos fartos.
Fartos de abrir o peito devagar e de que este se consuma a si mesmo pelo esquecimento. Está aberto... como todos os caminhos que levam uns tantos corpos a todas as facilidades que parecem prometer a saída desta rua sem saída, sem sentido sequer. Quatro paredes mas sem tecto... quatro paredes que não têm fim mas que lhes consegues ver o céu ou aquilo que parece sê-lo. O meu caminho não é falar-te. E o teu caminho não é, nem nunca há-de ser, o de me ouvires.
Vou-me comprometer.
Sei que sim.
Vou, devagar, apertar mais um pouco a corda e tudo aquilo que eu não digo vai ficar escrito na cabeça de alguém.
Maria Rocha, 2006