segunda-feira, 21 de abril de 2008

Viagem

i)


Tudo o que guardei em bolsos de casacos e de calças enquanto notas a dar vida... desapareceu. E aquilo que fui levava uma lanterna a iluminar o túnel que me fez desaparecer também. O que eu queria mesmo era devolver-me àquele ritmo alucinante que me fazia esquecer de mim mas que me levava a casa - seja lá o que isso for. Não vale a pena tentar iludir o rumo dos dedos. Todos conhecem esta viagem, mesmo que seja um percurso distinto a cada nova vez. Depois do êxtase da subida há sempre uma ressaca que nos convida a uma paz urgente. Esqueço-me de mim para não entrar em colisão com o reflexo deste espelho rachado. E às vezes, gostaria que fosse de uma forma brutalmente amnésica para que nem eu nem tu nos tivéssemos de lembrar que existimos.


ii)


Devíamos agarrar em nós e cortar bruscamente com o que nos prende. Deixar de lado a educação, o conveniente e partir para um lugar ainda por descobrir, por habitar e por destruir também. Imagina assistires a um concerto e um dos músicos desistir a meio da actuação e deixar-te em pleno êxtase. Facilmente vaguearias de um estado de felicidade extrema para uma atitude zangada e de revolução. E se o que fez com que o músico desistisse naquele momento fosse mesmo isso, uma revolução? Uma das que não se vêem, mas que se sentem em acelerado e compassado crescimento. Eu sei que falo muito em música e sei que é como se tivesse estado cega este tempo todo e de repente a tivesse descoberto, como se tivesse feito o seu parto na minha extensa lista de itens a explorar. Mas é uma paixão que sempre esteve por aqui a pairar. Talvez como sombra e em quantidades regradas e em géneros arrumados. Digo-te que devíamos esquecer grande parte do que somos e fazer o exercício do espelho numa escala muito maior do que esta cidade, este país.



Maria Rocha, 2008

3 comentários:

anya disse...

De vez em quando seria mesmo bom cortar com o que nos prende, deixar para trás e descobrir o resto de nós...

Vanessa Lourenço disse...

Por vezes acho absolutamente assustador o facto de nos percebermos tão bem, tu escreves-te mas ( e não tirando crédito à tua genialidade porque seria impossivel tal coisa) a mente é tua e os dedos poderiam ser os meus porque partilhamos muito mais que a o ano de nascimento. Apetece-me abstrair disto, deste mundo a que me prendo, deste mundo que renego e tal qual masoquista, volto e corto, porque sim, porque tem de ser. Mas não, não tem, quando quiseres sair, pega na minha mão e puxa-a porque nem precisas dizer onde vamos, eu vou. Um beijo my dearest Mary***

M.R. disse...

anya: Devia ser um hábito incorporado no quotidiano sem se tornar banal? E seria isso possível?

Descobrir-nos é a tarefa e a viagem mais apaixonante de sempre.

vanessa lourenço: We are soulmates. : )