quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Sem bússola

Parte I



O som dos estilhaços dos vidros a partirem-se eram agora gritos que invadiam
as casas mais distantes dos arredores da cidade - foi assim que soube que algo majestoso
estava a acontecer no exacto momento em que fechei os olhos para o que julguei
ser mais uma noite de insuficiência de sono.

Tudo parecia preceder-me.

Na manhã seguinte, rumava ao café do costume que se situava a uns cinquenta metros
de qualquer ponto da cidade onde quer que eu me encontrasse. Algo me arrastava até lá,
como se aquele hábito fosse já superior a mim e não fosse eu o ser que comandava
os meus próprios membros.

Trazia uma música nos ouvidos. Uma daquelas que não tem letra propositadamente, de modo a ser preenchida por todas as possibilidades que um percurso mesmo que previamente traçado
pudesse ter.

As pernas encontravam-se nos escassos segundos que se cruzavam e pareciam ter
uma repetina vontade de parar diante das portas espelhadas das lojas que precediam
o café.




Parte II



A temperatura da cidade acompanhava a caótica temperatura corpórea que deambulava por entre as ruas. Às três da tarde era febril o calor que emanava do alcatrão e quase se ouviam as derradeiras frases semi-acabadas dos moribundos em fase terminal.

Era neste quadro que se sentava quase sempre no mesmo par de mesa e cadeira.

Era Novembro e já o ano se fazia adiantar driblando os que faziam crer que iria chover ou
que iria estar calor.

Já não haviam estações e num dia presenciar-se-ia toda a viagem de uma vida.




Parte III



O silêncio percorria e acariciava o epicentro da mobília que abraçava um só corpo.

É irrelevante tentar fugir-se ao mesmo ponto convergente.
Arrecadar palavras, gritos, sussuros, pessoas num qualquer canto da memória quando, invariavelmente, se torna a rumar à mesma casa antiga de tecto estrelado de onde se observam as cadentes partículas celestes a ocuparem o som preenchido de silêncio.

Ninguém abraçava ninguém.

Tudo não fora apenas uma espécie de jogatana pontual de quem está cansado de brincar
com os seus limites e já não tem mais nada a dever ao mundo.

É o fim. É o início do fim.

Inventam-se nomes para que possamos estar mais próximos de nós mesmos e daquilo que nos porá fim ao que (não) f(s)omos.

É completamente viciante e decadente a linha que nos une.

A nós, irmãos, tudo o que nos liga será então o nosso fim.
A ilusão de que seremos pó e de que aí então nos fundemos finalmente uns nos outros e nos possamos esquecer do que em tempos foi o nosso nome, idade ou sexo será, exactamente, o que nos afastará ainda mais.

Há o vento depois do silêncio.

O vento que nos separará as míseras partículas que, por engano, se acomodaram numa íngreme colina ou num beco sem saída de uma rua no meio da cidade.

A cidade.

Será ela que, mesmo depois de a revolvermos de baixo para cima, nos abrirá um buraco
profundo o suficiente para que nos tapemos das vergonhas que espalhámos desde a primeira respiração mais funda que fizemos?
Desde esse dia que começámos a roubar uns dos outros aquilo que pertence a todos.

Caminhamos para uma estrada inequívoca. Não há voltas a dar. Mesmo que viremos costas ao fim do trilho iremos dar-nos conta de que estamos espelhados inversamente e que jamais poderemos fugir ao destino de chegar ao fim da viagem.




Parte IV



Já não me recordo de que ponto exacto, de que rua sem saída e de que cidade fora do mapa saí.


Maria Rocha, 2006

3 comentários:

BlueShell disse...

Gosto sempre de te ler: espectacular!

[A quantos me têm lido e comentado
Desejo um Natal pleno de cor
E que em 2007
Cada despertar
Possa ser um hino
De exaltação à VIDA e ao AMOR!]

...

BLUE SHELL

Rei-Povo disse...

ja te dei a minha opiniao deste poema, mas nunca é demais dizer que está tocante, espectacular.

ve-se tanto que nao sei o que deva focar. fabuloso *

Iruvienne disse...

e cada palavra, cada frase assimilada, provoca um despertar interior para algo que sempre lá esteve...pedaços de vida?...talvez. é estranahmente familiar...

que gosto em te ler! =)

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